9 de janeiro de 2011

Pipa na praia

Estava sentado na beira de uma calçada na rua que sempre pego para ir a praia. Minha perna vacilante, o calor de 31ºC na moleira mais o antibiótico me baixaram a pressão de um jeito que fui obrigado a me sentar para refrescar o corpo com água e arejar um pouco as idéias sempre efervescentes. Como numa miragem vejo surgindo na esquina um piazinho loiro e franzino com quatro cachorros vindo em minha direção.

Quando o garoto se aproximou achei que era mais miragem ainda. O menino com o rosto pincelado com algumas sardinhas e o nariz queimado do sol é uma versão pocket daquele ator que fez o filme Lagoa Azul. Perguntei a ele se todos aqueles cachorros que o acompanhavam eram dele mesmo. Sabem como é a vivacidade que uma criança no alto dos seus sete anos, sempre curiosos com o mundo que os cerca.

O cachorro que ele mais gostava era o vira-lata que não parava de lambê-lo. Um garotinho muito esperto que queria me falar muitas coisas. Além dos seus fiéis escudeiros ele carregava dois minúsculos carrinhos na mão. Minha pressão tinha até retornado ao seu estado normal com a vivacidade do menino. Relatou os primeiros perrengues com os coleguinhas, uma mocinha que ele anda querendo impressionar e as brincadeiras que lhe agradam.

Perguntei ao Luiz Gustavo se ele gostava de soltar pipa. Os olhos do menino se iluminaram tanto que ele saltou para o meio da rua para mostrar o tamanho ideal da rabiola da sua pipa imaginária. Expliquei ao pequeno que a pipa ganharia mais destaque nas areias da praia, impulsionada pelos ventos que sopram no litoral, sem a tensão dos fios elétricos urbanos cerceando o trajeto da pandorga.

Comentei com o pequeno de que o horário tinha avançado e estava na hora de eu partir rumo à praia e ele de voltar com os cães – que não paravam de brincar - para casa. Passei-lhe as coordenadas geográficas do meu trajeto na praia e o horário que circulo naquelas redondezas para combinarmos melhor como iremos fazer essa pipa voar no céu da praia de Navegantes.

Os pais do menino surgiram na frente de casa, com um outro filho e ficaram observando alegres a sapequice do garoto. Expliquei a eles que vou à praia com minha irmã com certa freqüência durante a semana e que não haveria problemas de levar o Luiz Gustavo conosco. Me despedi deles e parti rumo ao mar. Sempre que chego na praia sento um pouco e fico contemplando um pouco os humores do nosso bom amigo.

Pois mal sentei na areia e dois pequenos, tão franzinos e sapecas como o Luiz, começaram a brincar de corrida perto de mim. Subiram e desceram várias vezes aquele morrinho no qual eu estava sentado no alto, observando até então o mar. Uma hora eles pararam perto de mim. Me perguntaram o que eu tinha feito na perna e expliquei-lhes por alto o acidente e a recomendação médica.

Um dos moleques apontou para o braço do irmão e disse que ele também já havia se machucado um tempo atrás, caiu no asfalto. Um deles encontrou uma nota de R$ 2,00 que havia caído do bolso do meu calção. Dei o trocado para o moleque e falei para eles conversarem com os pais deles para averiguar se não havia problemas deles ficarem com o dinheiro para comprar alguma coisa para eles. Então recebi um sinal de positivo da mesinha do quiosque no qual se encontram os pais da criança há alguns metros de distancia. Me despedi dos pequenos e resolvi partir para a minha tradicional caminhadinha na praia.

Procuro entender melhor como funciona a mentalidade das crianças e adolescentes de hoje. Afinal eles estão por aí marcando novas tendências e surgem com outros gostos que interagem com os últimos avanços conquistados pela humanidade. Surgem com um novo olhar para a vida. A geração 85 da qual faço parte, está ai firmando os passos. Minha irmã é da geração 97, pré-boom da internet. Nós estávamos indo com certa regularidade a praia até eu cortar a perna. Estou passando a Diana alguns conhecimentos geográficos e procuro saber dela qual o método que mais lhe agrada nos processos de aprendizagem.

Semestre passado iniciei as disciplinas de licenciatura no curso de geografia. Este semestre estou indo para a sétima fase do curso. No segundo semestre deste ano irei me deparar com uma turma com pelo menos 30 pré-adolescentes como minha irmã, buscando saber a metodologia de ensino que o professor irá utilizar na disciplina de geografia. Estou preparando o espírito para esta nova etapa que se concretizará mais adiante. De uma forma muito branda, acreditem.

A faculdade não te ensina uma técnica mágica e estanque para ser um excelente professor. Somos estimulados a desenvolver um estilo próprio capaz de suprir todas as diferenças e expectativas que uma sala de aula abarca. Percebo que os jovens de hoje estão mais antenados que acontece a sua volta. A educação de qualidade pode auxiliar ainda mais nesta tarefa de compreender melhor o mundo.

As políticas públicas direcionadas à educação ainda são recentes no Brasil. Precisamos de índices mais qualitativos nos processos de aprendizagem. A vontade de aprender dessa molecada é algo realmente estimulante. Infelizmente a educação básica no Brasil ainda não encontrou sua excelência e vou sair com essa missão da faculdade.

Dar o melhor de si, sem essa de lei de Muricy.

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