Comecei a olhar para o curativo logo abaixo do meu joelho direito. Por ironia do destino terminei o dia de reis literalmente ‘reinando’. Ao entrar na porta de casa resvalei numa placa metálica que se encontrava próxima a ela. Um corte de uns 6 cm se personificou na minha perna. Se fosse a jugular jorraria sangue como num poço de petróleo recém-perfurado. Às vezes sou meios estabanado com as coisas. Mas o destino não foi tão cruel comigo porque a casa da minha mãe em Navegantes fica bem em frente ao Hospital da cidade.
Andei 100 metros como um soldado raso ferido claudicando um socorro diante da emergência dos fatos. A recepcionista me pediu o RG e fez rapidamente o meu cadastro. Abriu aquela porta que toda emergência de hospital tem e me encaminhou para o setor de curativos. Esperei um pouco ate ouvir o doutor me chamar no corredor. Pela maestria na pronúncia do L do meu nome percebi que ele não era brasileiro. Pode parecer piada, mas fui atendido por um médico boliviano parecido com um antigo professor de física. Ele pediu para eu deitar na maca de tênis mesmo que ele já vinha iniciar os procedimentos. Voltou com uma enfermeira jeitosinha que o auxiliou nos trabalhos.
Perguntei algumas trivialidades para o médico e fiquei ali, meio tenso, esperando ele finalizar a obra. Tenho pavor de seringas. Na hora da agulhada me obriguei a fechar os olhos. Anestesiado, fiquei pasmado com a maestria do doutor de costurar os cinco pontinhos na minha perna. No último eu pensei que ele ia negar a ajuda da enfermeira e cortar a linha com os dentes, num momento profissional ninja, tamanho o domínio da técnica apresentada pelo médico boliviano
O doutor disse que era pra eu fazer o curativo no Posto de Saúde, hoje pela manhã. Mas a enfermeira fez questão de fazer um curativo, antes de eu sair do hospital. Ainda devolveu minha carteira que tinha esquecido em cima da maca. Depois disso, passei no gabinete do doutor para pegar a receita do antibiótico. Ele recomendou eu ficar sete longos e tortuosos dias afastado da praia. Também disse pra eu tomar a antitetânica e trocar o curativo no posto todos os dias. Acho que perdi meia horinha entre o ocorrido e os procedimentos profiláticos. Eficiência total.
Pode ser que em alguns lugares do país o atendimento hospitalar não seja tão eficiente assim. Mas pensem que até bem pouco tempo atrás se eu morasse na Flórida ou em qualquer outro lugar dos EUA, eu não teria o mesmo atendimento que o Brasil oferece. Não estou passando a mão na cabeça do SUS, mas o serviço funciona muito bem em alguns casos. Por mais absurdo que pareça, a nação mais toda poderosa do mundo não oferece um sistema de saúde publica aos seus democráticos cidadãos.
A reforma no sistema de saúde estadunidense foi a principal promessa de campanha do presidente Barack Obama. Em 2008, segundo estimativa do governo, 46,3 milhões de pessoas – incluindo a massa de imigrantes – não tinham plano de saúde nos EUA. O governo financia dois programas, o Medicare que é destinando para pessoas com mais de 65 anos de idade e o Medicaid, para pessoas de baixa renda - acredito que só para cidadãos natos ou naturalizados, excluindo os imigrantes. Veteranos das forças armadas e crianças pobres também são contempladas por um auxílio governamental, como se fosse um bolsa-sáude norte-americano.
A intenção de Obama é oferecer assistência médica a 32 milhões de americanos que atualmente não possuem seguro-saúde. A nova legislação ampliaria a cobertura dos programas Medicare e Medicaid. Também impede que seguradoras cobrem taxas abusivas. Grande parte dos estadunidenses precisam adquirir seu próprio plano de saúde por meio de seus empregadores ou ainda por conta própria. Após a lei ser sancionada, todos os americanos serão obrigados a manter um plano de saúde básico.
Aqui no Brasil, o Sistema Único de Saúde, popularmente conhecido como SUS, foi criado pela Constituição Federal de 1988, visando atender a todos os brasileiros. Pensem, que a reforma no sistema de sáude proposta por Obama foi sancionada ano passado, no último ano da primeira década do século XXI. Temos um sistema público de saúde desde a penúltima década do século XX. Duas grandes nações que avançam de forma diferente. Tirem suas conclusões.
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